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26 de outubro de 2009

Sir Gawain e o Cavaleiro Verde



Todos os anos em que havia paz no reino, na época de Natal, uma grande celebração enchia o castelo do Rei Arthur com música, banquetes e histórias. Os Cavaleiros da Távola Redonda contavam sobre suas aventuras no País do Norte, onde sua coragem e a virtude eram testados por estranhos. E cada conto relatado tornava-se mais impressionante do que o anterior.
– “Diga-nos, jovem Gawain” – disse um cavaleiro dando uma risada – “Qual de tuas grandes proezas irás nos contar?”
– “Bem, eu...” – Gawain gaguejou porque ele era o mais jovem e inexperiente dos cavaleiros.
– “E-eu eu deveria espantar os pássaros das copas das árvores com mi-mi-minha eloquência” – interrompeu um outro, e todos os cavaleiros e damas à mesa deram altas gargalhadas.
Essa não foi a primeira brincadeira que criaram para fazer pouco caso do jovem Gawain. Mas dessa vez uma donzela da corte chamada Caryn gritou – “Eu acho que um dia Gawain ira rivalizar com o melhor de vocês!” – Ela falou com tanta emoção que os convidados riram novamente. Mas eles foram interrompidos por uma voz tão forte quanto um trovão das repentinas tempestades de verão.
– “Perdoe-me, bom Rei” – rugiu ele.
Ao mesmo tempo, todos voltaram as cabeças em direção à entrada. Ali em pé, estava o homem com a aparência mais estranha que alguém já vira. Maior do que o mais alto dos cavaleiros, com pernas grossas como carvalhos, ele era verde da cabeça aos pés. Apenas o ornamento dourado de sua túnica e seus olhos, que produziam um vermelho como brasas, é quebravam a intensa cor de sua figura.
– “Bravos Cavaleiros da Távola Redonda” – proclamou o Cavaleiro Verde – “Eu vim propor um pequeno jogo natalino, um teste para vossa coragem. Um de vós deve desferir um golpe forte com este machado em meu pescoço. No entanto, cuidarei de minha sobrevivência, pois me deve ser permitido um golpe em resposta. E como sou eu um esportista, meu companheiro de jogo deve ter o tempo de um ano e um dia antes que eu levante a lâmina contra ele”.
O próprio Rei Arthur preparava-se para aceitar a proposta, mas Gawain sentiu seu sangue ferver. “Esta é a minha chance”, pensou ele. E dando um passo adiante, disse – “Eu farei isso!” – e gritou mais alto então – “Darei cabo do desafio!”
O riso do Cavaleiro Verde atravessou o salão como o vento da primavera galopa através das árvores. – “Boa sorte, rapaz” – disse ele, ainda rindo. O cheiro de sua respiração era algo de adocicado e podre, como grama cortada e deixada por muito tempo no canto de um celeiro. Então se ajoelhou, depois apoiou as mãos no chão e disse – “Ela é toda tua, jovem cavaleiro” – e ele apontou para a pele verde exposta de seu pescoço.
Gawain olhou de relance para Caryn. Então respirou fundo, brandiu a brilhante lâmina para o alto e com força a conduziu novamente para baixo. O machado retiniu sobre o chão de pedra e a cabeça cabeluda do Cavaleiro Verde saiu voando de seu corpo.
– “Oh, meu bom Deus” – murmurou Gawain diante da cabeça rolando pelo chão. Mas o silêncio do público rapidamente deu lugar a um arfar de surpresa. Eis que o Cavaleiro Verde estava se levantando. Então ele dirigiu-se confiante para sua cabeça, apanhou-a pelos cabelos e ergueu-a como se fosse uma lanterna.

– “E agora, jovem Gawain” – falou a cabeça – “Como nós acertamos, tu tens um ano e um dia até nosso encontro, quando será minha vez de usar a lâmina. Tu encontrarás a mim no País do Norte, onde sou conhecido como o Cavaleiro da Capela Verde. Adeus.” – E com isso ele apanhou seu machado e passou pelo arco de pedra da porta, com sua profunda gargalhada ecoando pelas paredes atrás dele.
Nos dias e meses que se seguiram, Gawain e Caryn passaram mais e mais tempo juntos. Mas antes que eles se dessem conta, o inverno estava chegando novamente. Em breve chegaria o tempo de o jovem cumprir sua promessa de encontrar-se com o Cavaleiro da Capela Verde. E ao anoitecer do dia anterior a sua partida, o casal enamorado subiu até o alto de uma torre do castelo para ver a neve caindo sobre as colinas. A luz era azulada e todo o mundo parecia estar em silêncio.
– “Eu tenho algo para ti, Gawain” – disse então Caryn. E de dentro de seu manto ela retirou uma faixa de seda, bordada com figuras intricadas. – “Ao longo de todo este ano, em segredo, eu estive tecendo isto. Leve contigo em tua jornada como uma lembrança” – E ela lhe entregou a faixa.
Tão bravamente quanto podia, Gawain disse – “Até que eu retorne, eu jamais me separarei disto, eu prometo”.
No dia seguinte, como ele havia acertado, Gawain se preparou para ir em busca da Capela Verde. Os Cavaleiros da Távola Redonda vestiram suas melhores armaduras, honraram sua coragem e desejaram-lhe boa sorte. E logo o jovem cavaleiro, montado em Gringolet, seu cavalo, deixou as fazendas do país com seus celeiros para trás. E as montanhas, com seus penhascos, elevavam-se como os dentes de um lobo, e os rios e florestas já não eram mais os de sua terra. E mesmo assim, ninguém dentre as pessoas que encontrava pelo caminho havia ouvido falar do Cavaleiro Verde.
Finalmente, quando o natal estava próximo, Gawain distinguiu a forma de um glorioso castelo elevando-se acima das brumas diante dele, sobre um alto platô. Agradecendo sua boa sorte, ele alcançou os portões do castelo e gritou – “Sou um cavaleiro da Távola Redonda do rei Arthur procurando pela Capela Verde. Vós podeis me ajudar?”
Prontamente, os imensos portões de madeira se abriram com um rangido.
– “Bem, olá cavaleiro viajante” – disse o grande homem animado que veio para cumprimentá-lo. – “Eu sou Sir Bertilak, e ficaria satisfeito em ajudar-te. Mas antes, tu deves juntar-se a mim e a minha esposa em nossa comemoração natalina. Pois nós adoramos visitantes do sul” – e ele riu amigavelmente.
E assim, Gawain tomou um banho quente e colocou vestimentas novas. No jantar, ele sentou-se no lugar de honra, entre Sir Bertilak e sua esposa. Ele nunca havia provado especiarias tão deliciosas, ou foi entretido por alguém com tanto charme como Lady Bertilak. Seu riso era limpo como música, e quando falava suas mãos moviam-se como pássaros através do céu.
Ao fim da celebração, todos no castelo haviam ido dormir, mas Gawain virava de um lado para outro na cama gigantesca do quarto de hóspedes do castelo, perguntando a si mesmo se esta seria sua última noite sobre a terra. Passado algum tempo, ele ouviu uma leve batida na porta. Ela lentamente se abriu e Lady Bertilak entrou. Seu longo cabelo estava solto, quase pela cintura, e em seus olhos havia uma luz pálida e encantadora. E Gawain pensou consigo que talvez estivesse sonhando.
– “O Cavaleiro Verde” – sussurrou a Lady, aproximando-se dele – “é o mais mortífero dos adversários, sem dúvida. Mas eu conheço uma maneira para que tu talvez sejas poupado” – e ela se aproximou, e seu cabelo brilhou como se estivesse banhado pela luz da lua – “Troque comigo essa tua faixa de seda por esta aqui” – e de sua túnica ela tirou uma fita de seda rubra – “Esta é uma fita mágica, Gawain. Ela irá proteger você do machado do Cavaleiro Verde, e conservará sua vida”.
As dobras escuras da faixa pareciam esticar e enrolar-se diante de Gawain, como um caminho através de uma enorme floresta. Mas aos olhos de usa mente Caryn apareceu e a nobreza de seu coração elevou-se.
– “Não” – ele disse – “sua oferta é generosa, mas se eu a aceitar certamente de nada valerá minha vida. E seja como for, estarei com a faixa que agora tenho amarrada em minha cintura. Eu manterei minha promessa”.
–“Que assim seja” – disse Lady Bertilak – “Boa sorte, jovem Gawain” – então caminhou em direção à porta. Para o cavaleiro cansado, pareceu que ela havia desaparecido nos raios do amanhecer. E uma luz cinza arrastou-se pelo chão do quarto, já era dia.
E então, Gawain logo se encontrava cavalgando para o vale que abrigava o Cavaleiro Verde e sua capela. Um ruído agudo de amolação soou pelo ar, e faíscas saltavam como uma chuva vermelha através da límpida manhã. O Cavaleiro Verde afiava seu machado.
– “Bem vindo, rapaz!” – berrou o cavaleiro para Gawain. Seu riso ecoava pelo vale estreito. Com tanta coragem quanto ele pode demonstrar, o jovem ajoelhou-se para receber o tenebroso golpe do cavaleiro. Ele pensava em Caryn e em todas as figuras bordadas sobre a faixa quando o machado desceu com violência.
Gawain aguardou por um momento e então por outro mais. Ele sentiu um fio de sangue quente escorrer pelo seu pescoço. Mas sua cabeça ainda estava sobre seus ombros. A lâmina cortara tão somente sua pele. Ele levantou e corajosamente puxo sua espada longa. Mas o Cavaleiro Verde apenas sorriu para ele.
– “Agora não estragues nosso bom esporte essa tua espada, Sir Gawain” – disse o Cavaleiro Verde, e então ele lhe estendeu a mão. Surpreso, Gawain guardou sua espada de volta na bainha e, como era o velho costume, apertou o pulso do Cavaleiro Verde.
– “Considera-te um verdadeiro campeão em nossa pequena disputa!” – continuou o Cavaleiro Verde – “Tu provaste teu desejo pela nobreza dos cavaleiros quando aceitaste nosso desafio, e tua honestidade e coragem quando cumpriste tua palavra e compareceste ao nosso encontro. E, o mais importante de tudo...”
Então, ouviu-se uma voz de dentro das profundezas da Capela Verde. – “O mais importante de tudo” – disse Lady Bertilak, que estava saindo nesse instante, para se juntar ao Cavaleiro Verde – “tu foste fiel aos mistérios de teu próprio coração”
Então o Cavaleiro Verde soltou uma sonora gargalhada. E seu cabelo enrolado tornou-se vermelho como um pôr-do-sol. Um momento depois, ali diante dos olhos arregalados de Gawain, estava Sir Bertilak. – “Tu agora tens uma verdadeira história para contar na Távola Redonda, não é rapaz?” – ele disse e gargalhou novamente – “E essa marca em seu pescoço, considere-a como uma pequena lembrança do pai do Norte”.
– “Adeus então” – disse Gawain cordialmente. Ele montou seu cavalo e acenou se despedindo naquela clara manhã de inverno. Deu meia volta e esporeou Gringolet para fora do vale, deixando-o para trás, indo em direção ao seu lar, ao Rei Arthur e a Caryn.

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Esta é mais uma tradução livre que faço de um antigo conto, cujo texto original não encontrei novamente na web para colocar um link aqui. Esse texto é na verdade uma versão compacta de um romance aliterante do século XIV escrito em Inglês Médio. Segundo a Wikipedia, “Sir Gawain and the Green Knight” sobreviveu em um único manuscrito, o Cotton Nero A.x., e é um poema importante no gênero romântico, que tipicamente envolve um herói que parte em uma jornada que testa suas habilidades. A ambigüidade do final leva a uma complexidade ainda maior.
Além de seu complexo enredo e rica linguagem, o uso sofisticado do simbolismo medieval é o principal interesse da crítica literária. A história continua popular até hoje, graças às traduções de renomados escritores, sendo que um deles foi J. R. R. Tolkien.
O diretor inglês Stephen Weeks fez dois filmes baseados nesse poema: "Gawain and the Green Knight" de 1973 e "Sword of Valiant: The Legend of Sir Gawain and the Green Knight" de 1984.



9 de julho de 2009

A Espada na Pedra


He’s the one who took the sword
Out of the stone

It’s how the ancient tale began

Blind Guardian, A Past And Future Secret

A cada dia, a saúde do Rei tornava-se mais debilitada, e o anjo da morte rondava seu leito.
E como a cerveja preta que transborda de uma caneca e se espalha pela mesa, a notícia correu ligeira pelo castelo, e do castelo por todo país. Em toda esquina, mulheres tagarelavam sobre os rumores, e os homens ficavam perturbados e falavam a respeito com pesar.
Era verdade que o Rei Uther já estava sofrendo há muitos e cansativos meses daquela doença fatal, e portando, o agravamento de sua moléstia não surpreendeu ninguém. Mas, eram as estranhas deformações que seu mal lhe acarretou é que realmente despertavam espanto e consternação. Pois, era notório que o Rei fora imprudente.
Há poucos dias, suportando as dores, e curvado como um leão ferido, ele esteve no campo de batalha, e sua presença pode inspirar a coragem em seus homens. Havia conquistado a vitória, vitória pela qual o valente monarca teve que pagar muito caro. E agora, ele repousava, encarando a morte, incapaz de dizer uma palavra.
Por isso, nos cantos obscuros do castelo, cavaleiros conversavam entre si. – “Certamente, grande é o mal que recaiu sobre o Rei e sobre o reino”. – murmurou um deles, em tom de protesto – “Desde que se soube que nosso monarca morreria, e em breve ele deve morrer, pois é o destino de todos os homens, pouco temido pelos valentes, devia-se ter tomado providências no sentido de indicar um nome à sucessão”.
– “Com tantos barões ansiosos por arrebatar para si a coroa de nosso belo reino, teria sido algo muito bom se o rei tivesse deixado um filho para sucedê-lo” – disse outro.
– “Sim, mas como ele não deixou nenhum,” – replicou o primeiro – “teria sido bom se a Divina Providência não lhe tivesse negado o uso língua para escolher alguém.”
Assim, continuaram discutindo entre si, até que subitamente passos fizeram-nos voltar os olhares, e o que viram fez com que ficassem imediatamente em silêncio. No entanto, o dono daquelas passadas não nenhum nobre poderoso. Quem cruzara o átrio era Merlin, o mago, vestindo seu manto escuro e usando o capuz, que mantinha seu rosto oculto em sombras. O silêncio permaneceu até o mago sair dali.
– “Merlin está indo aos aposentos do Rei” – observou um dos homens, seguindo com seus olhos a figura sombria.
– “Este deve ser um dia triste para Merlin, pois ele era um bom amigo do Rei Uther” – disse outro – “ouvi dizer que seus encantos teriam auxiliado muito o rei em relação a seu casamento.”
– “Mas, agora ele pouco pode fazer para ajudá-lo” – murmurou um terceiro – “a morte é mais forte do que as artes de Merlin, e seus cadavéricos dedos já estão sobre o Rei.”
Nesse momento surgiu outro desocupado, e se aproximou do grupo com um olhar radiante e um sorriso de desdém nos lábios, como se soubesse de algo importante, que compartilharia com eles para iluminar-lhes a ignorância, a fim de enaltecer a si próprio.
– “Vós vistes Merlin passar?” – perguntou ele, com o queixo levantado e um ar arrogante.
– “Sim, nós o vimos” – foi a resposta – “e quão soturno era seu passo. Ele foi visitar o Rei, que bem pode expirar derradeiramente antes que o mago o encontre.”
– “Que os Santos não permitam!” – exclamou o recém chegado – “Isso seria algo ruim para Merlin. Pois, não prometera ele, para o dia de hoje, na presença da Rainha e dos Nobres que, com seus místicos artifícios, e com o auxílio dos Céus, faria com que o Rei falasse?”
Diante daquela notícia, todos ali ficaram boquiabertos e de olhos fixos na figura daquele que a trouxera, ao passo que se aproximavam ainda mais dele. O fuxiqueiro, saboreando o efeito que tinha produzido, prosseguiu com sua conversa, derramando detalhes como quem vira um cálice. E, como se fosse um vinho fino, os ouvintes beberam de sua história.
Enquanto isso, Merlin havia alcançado os aposentos do Rei.
As portas fecharam-se atrás dele, e retirou o capuz da cabeça, avaliando a Aristocracia reunida e a Rainha em prantos.
– “O Rei ainda vive?” – Inquiriu ele duramente.
– “Ele ainda vive, mas é tudo” – respondeu uma voz, num lamento.
– “E não vos falou?”
– “Ele não nos disse uma palavra” – murmurou um Nobre – “Lembre-te, Merlin, tua promessa, dada ontem a nós: ‘Reuni-vos, pois, ao Rei em sua câmara, amanhã a esta hora, que pela graça de Deus, e com o auxílio de meus encantos, o Rei Uther dará o nome de seu sucessor ao trono.’ ”
– “É verdade o que recordas.” – disse o mago indiferentemente – “Essas foram realmente as palavras que proferi.”
Então, ele se aproximou da cama do Rei, e nuvens acumularam-se em seus olhos como as que se juntam no céu antes da chuva.
– “Esta é a vontade de todos,” – disse voltando-se aos demais – “que eu faça o Rei falar, perturbando assim, seu espírito adormecido? Para que vos revele o nome de seu sucessor?”
– “É nossa vontade.” – disseram os Lordes; e a Rainha também respondeu – “Essa é a nossa vontade.”
Merlin fechou seus olhos por um momento, então, voltou-se para a cama, – “Majestade” – disse ao Rei – “conte-nos sua vontade em relação ao bem estar de seu reino. É de seu desejo que seu filho Arthur o suceda, tornando-se regente supremo desta terra.”
Essas palavras mal foram ditas quando o Rei respondeu, em sua própria voz, e sem pausas – “É meu anseio e desejo sincero que meu filho Arthur use minha coroa. Eu ordeno-lhe, portanto, que a reclame, quando for chegada a hora, e que seu espírito seja correto e justo, e que tenha ciência que governar estes domínios é seu dever e sua responsabilidade. Se ele não o fizer, que perca, então, as bençãos que lhe concedo agora.”
O Rei havia proferido duramente essas palavras, quando, com um suspiro, sua respiração cessou e ele morreu.
Então, os Nobres, tomados pelo desespero e pela raiva, começaram a acusar Merlin entre eles, chamando-o de impostor, entre outras alcunhas semelhantes. – “Isso Foi um truque de Merlin,” – diziam – “ele deve ter manipulado as palavras na boca do Rei; além disso, ele bem sabe que o Rei Uther não tem filho algum. Seria melhor se ele tivesse feito o Rei indicar o nome de um de nós para sucedê-lo, assim teria sido muito mais simples, e nenhuma desordem se abateria sobre o reino.”
Sussurrando assim, entre si, eles lançavam olhares coléricos para o Mago. Mas, ele ocultou sua face, virou-se e, sem palavra alguma, foi embora.
Dessa forma, morreu o Rei Uther, tendo nomeado como sucessor um filho, de quem os Nobres nada sabiam; e por muitos anos, o reino justo que ele havia governado, foi dilacerado por conflitos, por batalhas e por disputas acirradas. Pois, havia muitos Lordes que almejavam a coroa para si, e que se lançariam à fúria da batalha com maior fervor do que profeririam uma oração.
Assim, os Nobres se esforçavam, discutiam e guerreavam, enquanto os anos passavam, e a glória do reino esmaecia. Mas, amanheceu um dia, quando os Lordes estavam cansados de si mesmos, de suas reivindicações, e do caos em que o país se encontrava, que não mais relutaram que dentre eles um deveria ser escolhido para ser o Rei.
Então, Merlin foi visto novamente, caminhando por entre o povo, envolto em seu manto sombrio. Era sabido que ele havia pedido uma audiência com Arcebispo de Canterbury. E quando estava diante dele, Merlin disse:
– “Não é algo terrível, que o nobre reino da Inglaterra deva ser dilacerado pelas intenções de homens ambiciosos? Pois, é chegado o dia, em que tu tens a oportunidade de restaurar e partilhar de uma porção da antiga glória. Eu rogo a ti que reúnas os Lordes deste reino e os Senhores de armas, para que eles peçam em oração a Deus, para que Ele nos dê um sinal que possa revelar o governante de direito de nosso reino.”
O Arcebispo ponderou essas palavras e, quando havia examinado bem o conselho de Merlin, concluiu que era uma boa idéia e digna de um povo cristão. Portanto, ele respondeu – “Eu os reunirei.”
Merlin olhou para o chão, ocultando seus pensamentos. No momento seguinte, disse ele – “Reúna-os na época do Natal, pois se nesses dias Deus nos presenteou generosamente com Seu Filho, talvez Seu coração esteja inclinado a nos dar outras dádivas.” – E, após dizer isto, ele partiu. Onde ele foi eu não sei, mas por muitos dias os homens não viram sinal de Merlin, o mago.
O Arcebispo, então, reuniu todos os Nobres e Senhores da guerra, mas ninguém sabia que esta iniciativa não partira do próprio sacerdote. Eles chegaram a Londres, em resposta a seu chamado, e muitos Cavaleiros haviam jejuado primeiro, e outros, por sua vez, flagelavam a si mesmos, para que suas preces fossem melhor ouvidas nos Céus.
No dia de Natal, eles reuniram-se todos, inclusive com a plebe, em harmonia, quer na catedral de São Paulo, ou alguma outra grande igreja; e todos os homens rezaram com tamanha seriedade que o sinal que tanto ansiavam certamente lhes seria revelado.
Um dos Cavaleiros que estava lá, enquanto orava, sentiu diante de seus olhos fechados um lampejo repentino, como se fosse um tipo de luz muito forte. Se ele havia rezado mais fervorosamente que seus companheiros, para que um grande evento lhe fosse revelado primeiro, nós não sabemos, pois julgar este tipo de coisa está além do discernimento humano. Mas, é sabido que, ao descobrir seus olhos e olhar adiante, este cavaleiro viu através da porta aberta da igreja, alguma coisa que brilhava com imensa intensidade, que o lembrou da luz que ele tinha visto. Ao observar aquilo durante algum tempo, pode perceber que se tratava de uma grande pedra branca, e que cravada nela estava uma espada dourada.
Quando o jovem ficou certo do que realmente estava vendo, foi acometido por tremores, pois percebera que não se tratavam de coisas terrenas. Então ele sussurrou para aquele que estava a seu lado sobre o estranho acontecimento, e este para o outro, que também contou para quem estivesse sentado por perto, e assim por diante até que o ocorrido alcançou os ouvidos do Arcebispo onde se encontrava.
Mas, ele, enaltecendo primeiro a glória de Deus, avisou que as preces deveriam terminar antes de se averiguar qualquer coisa.
Depois, quando a cerimônia havia acabado, todas as pessoas saíram da igreja, ansiosos para presenciar o milagre, e encontraram tudo conforme o jovem cavaleiro havia descrito.
A pedra branca estava no adro, e a espada dourada cravava nela. E sobre a espada estavam gravadas palavras que luziam como chamas. O Arcebispo as leu, apoiando as mãos sobre os joelhos.
– “Aquele que retirar esta espada da pedra, será o que legitimamente nasceu para ser Rei da Inglaterra.”
Diante de tais palavras, os Lordes e Senhores olharam uns para os outros, e as pessoas abriram seus lábios e observavam o Arcebispo. No entanto, ele manteve a cabeça abaixada por alguns minutos, como se ouvisse alguma voz proferindo palavras que e os outros não escutavam, então disse – “O sinal está dado, estais vós dispostos a acatá-lo?”
E eles responderam a uma só voz: – “Nós o aceitamos.”
Então, disse o Arcebispo – “Deus nos enviou este sinal, assim, em doze dias deverá ser dado a qualquer homem testar sua capacidade para remover a espada. Até esse dia, todos devem ser pacientes, e até lá alguns cavaleiros, famosos pela nobreza e virtude de seus atos, deverão guardar pedra.”
Tendo ditado como iriam proceder, o Arcebispo seguiu seu caminho, com o coração alegre em seu peito. Ele ainda contava que no Ano Novo deveria haver justas e um torneio, entre outras festividades, que manteriam os Nobres e a plebe juntos até que o novo rei lhes fosse revelado.
No primeiro dia do ano, as estradas estavam cheias e movimentadas com a alegria de Lordes e aldeões a caminho dos festivais. Os Lordes mostrariam sua bravura e habilidade nos torneios, e a plebe iria assisti-los e desfrutar o feriado. Com a multidão, cavalgava Sir Ector, um nobre cavaleiro que bem amara o Rei Uther, e em sua companhia seu filho Sir Kay, que fora sagrado cavaleiro no último Dia de Finados, e o jovem Arthur, seu filho adotivo, que não passava de um rapazinho.
Arthur cavalgava um ou dois passos atrás, mas o fazia por sua própria conta. Seu olhar estava tomado pelos encantos da estrada, e em seu coração palpitava a felicidade ao admirar as maravilhas do mundo. Ele estava tomado por estas emoções, que não percebeu a agitação de seu irmão, cujo rosto tornara-se repentinamente vermelho de vergonha.
Afinal, Sir Kay virou seu cavalo com um puxão tão repentino que Arthur quase se chocou com ele. – “Por que, irmão” – ele reclamou, ainda surpreso – “o que te atormenta? Minha cabeça estava nas nuvens, é verdade, mas tu quase a atiras contra a terra com tua pressa.”
O aspecto de Sir Kay era tal qual a lua da colheita, mas não possuía nenhuma alegria – “Eu esqueci de minha espada, uma atitude tola.” – murmurou ele, para em seguida bradar – “Agora recai sobre mim o infortúnio de percorrer como o vento toda a distância da estrada para buscá-la.”
– “Não” – disse o garoto rapidamente – “isso não se faz necessário. Apressa-te para alcançar nosso pai. Eu retornarei à hospedaria rapidamente, e apanharei tua espada.” – E ao dizê-lo virou-se, contente por ter uma desculpa para impor ao cavalo um ritmo mais próximo ao de seu sangue, que corria célere nas veias. A juventude lhe dominava o coração, que batia ainda mais forte, e vibrava em seus olhos. E com cascos ruidosos ele corria pela estrada, sendo o único a rumar para a cidade. E desatento a qualquer olhar, grave ou amistoso, fez seu caminho até seu alojamento.
Tendo alcançado a casa, ele parou seu cavalo, e bateu na porta. As batidas foram elegantes e sonoras, mas elas nunca traziam uma resposta. O jovem Arthur passou a agitar seus punhos, e uma grande quantidade de golpes fora desferida. Parou para ouvir. Na rua havia um silêncio similar ao de uma tumba.
O garoto bateu com a mão ao lado para que o cavalo andasse. – “O torneio, o torneio! Todos foram para lá, todos eles!”
E deveras, foi o que aconteceu.
Enquanto isso, Sir Ector e Sir Kay seguiam vagarosamente, e a preocupação de Sir Kay só aumentava, ainda mais com a demora do jovem Arthur. Vez por outra, ele lançava um olhar ansioso para trás, soltando uma nova queixa aos ouvidos de seu pai toda vez que nada via. Então, ao longe percebeu uma nuvem de poeira, que aumentava ao se aproximar cada vez mais, até que Arthur surgiu cavalgando do meio dela.
– “Vê irmão, uma espada para tua mão!” – gritou ele – “Não digas que falhei contigo, mesmo estando a espada que possuis fora de alcance, atrás de portas trancadas!”
Sir Kay tomou a espada, muito satisfeito. Examinou-a atentamente, e à medida que o fazia seus olhos se arregalavam, e sua face empalidecia. Ele tremeu e, então, cavalgou adiante. Mas, Arthur nada percebera, e deixou-se ficar para trás novamente, tomado por seus pensamentos.
Sir Kay apressou-se para alcançar seu pai, cheio de novidades.
– “Sir” – bradou num tom espantado – “certamente eu, e nenhum outro, sou o escolhido para ser o Rei da Inglaterra, posto que em minha mão, eu empunho a espada da pedra!”
Diante dessa afirmação Sir Ector virou-se, e, tendo tomado em mãos a espada que seu filho carregava, ele viu que era de fato a mesma que estava diante da igreja.
– “Dize-me, foste tu quem retirou a espada da pedra?” – perguntou ele.
Sir Kay baixou o rosto, mas respondeu honestamente. – “Não, eu não a retirei. Meu irmão Arthur, que retornou para buscar a espada que eu havia esquecido, foi quem a trouxe a mim.”
Então, disse Sir Ector a Arthur – “Conta-me, foste tu que retiraste esta espada da pedra?” – E dessa forma o garoto foi despertado de seus doces sonhos, e confessou como, tendo encontrado todas as portas trancadas, impedindo-o de pegar a espada de seu irmão, ele foi com toda pressa ao adro da igreja e puxou a espada que repousava na pedra.
– “Não havia ninguém para impedir tal ato?” – perguntou Sir Ector.
– “Não” – disse o jovem – “Eles haviam ido todos ao torneio.” – E isto era verdade, pois todos os Cavaleiros queriam testar suas habilidades.
E assim, o velho Cavaleiro ficou pensativo e, quando chegou a uma conclusão de como agir, eles viraram os cavalos, todos os três, e cavalgaram de volta a igreja, que não ficava muito longe dali. Lá chegando, Arthur recolocou a espada em seu lugar.
– “Meu filho, tire a espada da pedra.” – disse Sir Ector a Sir Kay.
E o jovem experimentou abaixar-se, para melhor aproveitar sua força. Ele tentou uma vez, duas vezes, seus músculos explodiam e sua face fervia, mas ele não pode remover a espada.
– “Dá-me espaço” – ordenou o pai, e, colocando suas mãos sobre a guarda da espada, ele também tentou tirá-la a força da pedra, mas não podia movê-la nem a distância de um fio de cabelo de seu lugar.
Mas, quando Arthur pousou sua mão sobre a arma, ela deslizou da pedra como um raio de sol através da parede. E quando ele a recolocou, ela cravou na rocha tão rápido quanto antes.
Então, disse Sir Ector ao garoto – “Pelo desejo do Rei Uther, tu foste confiado a mim, quando ainda era um bebê, e de teu parentesco com o rei nada foi-me revelado. Agora, começo a pensar que o destino a ti reservado é maior que aquele que havia eu imaginado. Vamos ao encontro do Arcebispo, contar a ele sobre estes acontecimentos.” – E, imediatamente, foram até o Arcebispo, que fora assolado por um grande espanto ao ouvir a história deles. Mas ele advertiu que nada deveria ser dito sobre o assunto, até que o Dia de Reis chegasse, quando deveria ser dado a todo homem a chance de testar seus dons.
E, finalmente, quando completaram doze dias desde o sinal divino lhes fora dado, todo mundo estava ansioso, já que eram poucos os que não desejavam ver o julgamento da espada. Como faixas espiraladas estavam as ruas da cidade, alegres com as cores das vestimentas daqueles que se dirigiam ao adro da igreja. Barões e alegres cavalheiros, jovens e velhos, ricos e pobres, Lordes e plebeus, encontravam-se todos nas esquinas e se acotovelavam para abrir passagem. Ao adro se dirigiam as esperanças de todos, e lá as mais brilhantes expectativas eram destruídas. Para aquele evento eles foram alegremente, ainda que com um eco desafinado em sua melodia; vários indivíduos admiráveis testaram sua habilidade com um coração animado, tendo se esforçado ao ponto de sentir como se estivesse partindo em dois, para em seguida ir embora com alquebrado semblante, sem ter movido a espada nem a distância de um fio de cabelo. Sempre surgia um grupo de campeões, porém, se por um lado eles se enalteciam, de outro eram humilhados, pois um forte pretendente depois do outro, agarrava a espada com esperança e a deixava em lamento.
– “É como se uma forte corrente atasse a espada à pedra” – disse um desapontado cavalheiro.
– “Parece que está afixada com cravos” – disse outro, passando um lenço branco por sua fronte.
– “Eis que se aproxima um admirável candidato” – disse um espectador de baixa estirpe, ao cutucar seu vizinho. – “Eis um magnífico Cavaleiro, certamente se alguém pode mover a espada, deve ser alguém como ele.”
– “É Sir Kay, filho de Sir Ector; deve ele ter prazer em sua tarefa!” – falou o outro, lançando-lhe um olhar de desdém – “Ele começa bem, ao pretender possuir a espada.”
Era bem dito que Sir Kay intencionava ser o dono da espada dourada. Vários destemidos Cavaleiros tentaram arduamente, mas ele esforçara-se mais que todos. A noite se aproximava, e eram poucos os remanescentes para testar sua capacidade. Por toda parte podiam ser vistas caras com expressão de raiva e irritação, pois é como a decepção afeta os homens, as faces daqueles que agarraram a arma, apenas para soltá-la e abandoná-la em seguida. A fronte de Sir Kay franzia-se violentamente, não havia aquela espada antes repousado em sua mão num outro dia? Se ele não a conquistasse, seria porque ela não devia ser conquistada. Se não pudesse arrancá-la da pedra, seria porque a tarefa estava além de qualquer homem. Seu rosto tornou-se lívido, seus dentes cerrados enquanto segurava e puxava, curvando seu corpo sobre a lâmina e levantando-o acima dela, ajoelhou, repetiu, girou. Todos se aproximaram para assisti-lo. De todos os altivos cavaleiros, ele proporcionara o mais longo e mais bravo cerco à espada na pedra.
– “O que se passa, apanhou ele a espada?” – perguntou um rapaz de róseas bochechas, por fim a seus velhos pais, tentando elevar-se nas pontas dos pés, chutando, vez por outra, os calcanhares dos outros à sua volta.
– “Não, ele afastou-se em amarga confusão. Pálida era sua face, e frios seus olhos. Mas, a espada continua na pedra.”
– “Ela gosta de ficar lá!” – disse o garoto. – “Quem vem agora?”
– “O jovem Arthur, o filho adotivo de Sir Ector. Dizem que ele é uma das crianças trocadas por Merlin, impingido a Sir Ector quando bebê. Tu deverias afastar teus olhos, pois ele não é mais do que um menino, ainda mais carente de altura que tu. Ele não pode retirar a espada.”
– “Eu o observaria de bom grado” – respondeu o menino – “Eu tenho medo de Merlin, seus olhos são como a água que está por trás dos moinhos. Mostra-me essa criança de Merlin” – Ele elevou-se, e esticou-se novamente, estendendo seu jovem e fino pescoço. – “Tem ele uma boa aparência, amigo? Não consigo ver nada dele.” – Repentinamente – “Mas que algazarra! Diga senhor, qual é o significado disso?”
Uma miríade de vozes respondeu à questão. – “Ele operou o milagre, a espada foi retirada! O garoto a empunha! Vós não estais vendo? Ela lançou-se à sua mão como se estivesse apenas esperando por seu toque!”
– “Levantai-me!” – disse o Mestre Bochechas Rosadas, seus olhos brilhavam – “Eu quero vê-lo.” – Alguém o alçou, e ele pode ver de relance a figura de um belo jovem, de cabelos brilhantes e de olhos que pareciam arder com a centelha de sua alma. Ele viu, na mão da audaz figura, uma espada que reluzia como se estivesse envolta por fogo. Sobre ela estavam escritas palavras que cintilavam com o brilho das estrelas.
O menino desceu a seus calcanhares e cobriu o rosto.
– “Por que agora?” – questionou seu benfeitor.
– “Eu pude ver o sol.” – murmurou o garoto, piscando e derramando água de seus olhos.
Ainda diante do crescente ruído das línguas, vozes furiosas uniram-se à discussão.
Mestre Bochechas Rosadas retornou à realidade.
– “Os Nobres estão a queixar-se.” – contou-lhe o homem ao lado – “Eles dizem que ele não passa de um menino, e de fato suas palavras são verdadeiras. Eles dizem que o reino não pode ser governado com justiça por rapazinho sem barbas. Eles reclamam que ninguém sabe donde ele veio. Possivelmente, quem sabe, ele deva ser algum pirralho indigente. Veja, ele recolocou a espada, e ela cravou-se tão rápido quanto saiu. O Arcebispo recuou frente os Nobres. No dia da Candelária os homens deverão novamente esforçar-se para retirar a espada.”
E estas eram palavras verdadeiras, o Arcebispo havia cedido. Na Candelária haveria uma nova tentativa. A multidão tagarelava sobre o fato, e discutindo começou a debandar.
E quando chegou o dia da Candelária, o jovem Arthur novamente retirou a espada, e ninguém mais pode movê-la de seu lugar. E, assim, pois novamente os Nobres contestaram, lançando olhares que vertiam ira ao jovem, e exigiram uma nova avaliação para a Páscoa.
E na Páscoa os mesmos atos repetiram-se, e por consequência o assunto prorrogou-se até o dia de Pentecostes.
E em Pentecostes a espada tornou a mover-se para abençoar o rapaz, e não se rendera a nenhum outro.
Então, levantara-se a plebe, gritando em uníssono – “Arthur será nosso Rei! Não tem a espada o revelado a nós, por um sinal de Deus? Nós não necessitamos de outro que não seja ele. Chega de adiar o fato. E nossa oração será para que nos perdoe por atrasar o que tem de ser!” – E assim disseram, dobrando seus joelhos.
Em seguida, muitos dos galantes cavalheiros curvaram-se também, e bradaram – “Arthur será nosso Rei!” – E, tão grande foi o clamor e o ruído que nenhum outro protesto pode ser ouvido. E todo aquele que pretendia tocar uma melodia diferente, teve de engolir seu desagrado, e como diante de uma graça alcançada eles deviam se portar, e dobraram os joelhos junto de seus companheiros.
E, desse modo, foi o jovem Arthur aclamado Rei do reino da Inglaterra, conforme fora revelado por Deus em resposta a fervorosas orações. A espada da pedra ele depositou imediatamente sobre o altar, e ali foi sagrado Cavaleiro.
E antes que aquele ano findasse, Merlin, o mago, foi novamente visto entre os homens, trilhando caminhos pouco conhecidos. Então, tendo encontrado um grupo de Nobres que ainda guardava o descontentamento em seu âmago, falou a eles, lançando-lhes um olhar fulgente.
– “Sabei vós que este jovem de cara sem barbas, a quem saudastes tão tardiamente, é ninguém menos que o filho legitimamente nascido de Uther, o falecido Rei, que agora por justiça reina no lugar de seu pai. Fora Merlin, o mago, quem exigira a criança do Rei como o preço a ser pago por um serviço prestado a ele, em relação a seu casamento, mas secretamente zelava pela ventura do próprio bebê. Pois a criança estava indefesa e o Rei próximo da morte e incapaz de protegê-lo, e era de meu conhecimento a natureza de vossos corações. Vós sois homens rancorosos e causaríeis dano ao menino. Por conseguinte, eu, Merlin, exigi este pagamento do Rei Uther, chegando a um acordo de que Sir Ector, que é um Cavaleiro justo, deveria educar a criança. E agora, respondei-me, rogastes vós aos Céus por um Rei mais verdadeiro do que este Rei é?”
E todos eles ficaram em silêncio, baixando as cabeças.

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Mais uma lenda clássica que traduzi sem compromisso a partir deste texto aqui. No original a espada está presa à pedra trespassando uma bigorna, mas como não gosto dessa imagem tomei a liberdade de excluir a bigorna, assim como mudei uma expressão aqui e outra ali que não ficavam bem.
Excalibur realmente não é citada pois ela e a espada da pedra não são necessariamente a mesma arma. Segundo antigos poemas Arthur teria quebrado sua primeira espada em uma luta, e recebera Excalibur, cujo nome celta seria Caledfwlch, das mãos da Dama do Lago. No filme Excalibur de 1981 (recomendo), baseado nos escritos de Thomas Malory, as duas histórias são muito bem costuradas para construir a lenda sobre uma única lâmina.
A forma como este conto se apresenta aqui já demonstra a forte influência dos dogmas cristãos já consolidados, ao passo que o Arthur histórico, se de fato houve algum Arthur, teria existido por volta do século V d.C., quando o cristianismo ainda engatinhava. Mas, algo interessante de se observar neste texto, mesmo sendo catolicamente correto, é que Merlin, o mago, é quem sutilmente engendra os acontecimentos. O elemento pagão, mesmo aqui, está presente. Em romances recentes como as Crônicas de Arthur, de Bernard Cornwell (magnífico, não deixe de ler), e As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley (somente os livros, o filme é péssimo), é possível vislumbrar melhor, e com diferentes abordagens, o conflito entre o paganismo e a nova religião.

Agradecimentos a Marco "Kull" Nedopetalski, pelo auxílio com o inglês arcaico.

4 de junho de 2009

São Jorge e o Dragão


Havia um lago profundo, de águas calmas, localizado em um vale logo abaixo dos elevados muros de madeira, que cercavam a cidade no topo da colina. Todos os dias, as mulheres da cidade desciam até lá para buscar água. Seus carneiros bebiam em seus coxos, e algumas rosas floresciam espalhadas entre as amoreiras ao longo da margem. Então, uma manhã, as mulheres que iam até o lago deixaram cair seus baldes vazios, voltaram correndo, e fecharam os portões da cidade, ofegando de terror. Escalando até o alto da barreira, puderam espiar.
Um dragão, nascido nas fendas mais profundas do inferno, arrastou-se para fora das margens e revelou todo o horror de sua figura. Era uma reunião macabra de músculos, escamas e espinhos, sua boca vermelha bocejava enquanto espreguiçava seu corpanzil sob o sol quente. Seus dentes ásperos e irregulares projetavam-se através dos lábios verdes, seus olhos sem pálpebras eram perturbadores e suas garras sulcavam o leito da parte rasa do lago. De sua respiração imunda se elevava uma névoa verde. Seu pai era o Mal, sua mãe a Escuridão, ele era a encarnação da Crueldade.
Naquela noite ele deixou o lago, como um lagarto, cortou uma trilha através da lama, arrastando sua cauda espinhosa. As pessoas reuniram seus animais domésticos dentro da cidade e fecharam os portões. Mas os muros de madeira não eram eficientes frente às baforadas de fogo da fera. Uma parte da cidade foi devastada, e suas cinzas foram para longe com o vento da manhã. O dragão comeu dois cães antes de retornar ao lago, para enrolar-se como uma serpente dentro da água. No dia seguinte, as pessoas abriram os portões apenas o suficiente para empurrar dois carneiros para fora. Os animais baliram, a seguir trotaram em direção à depressão. De repente, foram cobertos pela sombra do dragão. Depois de serem rasgados em pedaços de lã e carne, foram devorados pelo réptil. Então, a cada dia, mais dois carneiros eram enviados ao lago.
Às vezes, após sua refeição, o monstro rastejava em direção à cidade e para coçar seu traseiro contra a paliçada de madeira. Da janela elevada do palácio, a princesa Sabra prestava atenção com seu semblante pálido e perguntava, "O que acontecerá quando não houver não mais carneiros?"
Antes que o último carneiro fosse entregue, por determinação do rei, as pessoas começaram a fazer a mais terrível das loterias. O nome de todo homem, mulher e criança foi incluído, e um era sorteado por dia. Essa pessoa era posta para fora da cidade, presa ao lado de um carneiro em um poste, para alimentar o dragão. Logo, o som da lamentação tomou conta da cidade. Os homens olhavam uns aos outros pelas ruas e pensavam - "Espero que seu nome seja chamado antes de meu". Um dia, o lamento veio do próprio palácio. O nome da princesa Sabra havia sido sorteado.
- "Não! Eu não permitirei!" - bradou o rei.
- "É a lei" - disseram os aristocratas da cidade. - "Você a fez dessa forma!”
- "Mas ela é tão boa e pura, e eu a amo tanto!”
- "Nós também amamos nossas filhas" - disseram algumas mulheres, - "mas ainda assim elas foram alimentar ao dragão quando chegou sua vez."
- "Mas ela é tão pequena e frágil, uma parca refeição para um dragão tão faminto!"
- "Vá então em seu lugar!" - responderam as pessoas. - "Quão bom para nós Vossa Majestade tem sido desde que o dragão surgiu?"
Notando a revolta em suas faces, o rei teve de entregar sua filha. - "Não me deixem vê-la novamente, ou eu posso mudar de idéia."
Não muito distante dali, um cavaleiro subia um monte íngreme quando seu cavalo parou e começou a bater o casco contra o solo, fungando fortemente pelas narinas. Mas o cavaleiro também estava ciente do cheiro de queimado e ácido no ar. Do alto do monte, olhando abaixo contemplou a devastação. No vale adiante, havia um lago sujo de águas podres. Além dele, uma cidade fortificada tinha suas portas fechadas em seu cerco. Voltando preguiçosamente a cabeça em sua direção, um dragão com asas incapazes de voar, pausou sua marcha e soltou um rugido. O lampejo da luz solar sobre os arreios blindados e o branco do próprio cavalo haviam se fixado no olhar da besta. Porém, nesse momento, um vulto cintilou a sua esquerda. Uma donzela de cabelos dourados em vestes levemente esvoaçantes era amarrada à estaca onde, diariamente, a besta buscava seu jantar. A menina lançou um olhar implorante para a cidade. Mas as janelas do palácio do seu pai estavam vazias. Sua cabeça voltou-se para frente em desespero.
O dragão soltou um rugido desdenhoso ao cavaleiro e virou-se para devorar seu pedaço de carne branco... "Detenha-se besta, pois eu sou Jorge de Lydda!" A voz do cavaleiro alcançou o monstro como um trovão através da vastidão. "Volta e luta comigo – pois certamente teu pai era o Demônio, a Escuridão tua mãe e tu és o próprio Desespero!" E Jorge preparou sua lança longa.

Uma coluna do fogo demoníaco cortou o ar. Mas o soldado galopou em sua direção colina abaixo, levantando um escudo frente sua cabeça e a de seu cavalo, desviando o fogo para o lado. O brilho do sol sobre o escudo e o elmo pareceu enfurecer ainda mais o grande verme. O nobre cavalo branco levou Jorge até a sombra do dragão, que esticou sua garra afiada para arrebatá-lo da sela. Então Jorge golpeou o braço do dragão com sua lança, mas as escamas eram resistentes como couro e ásperas como a pedra. O cavalo e o dragão então passaram a um confronto corpo a corpo. O suor da montaria respingava no flanco verde do réptil. Segundos depois, a pesada cauda chicoteava ao redor, mas o cavalo empinou e saltou em seguida através dos chifres da fera. A lança de Jorge golpeou o focinho da besta e quebrou-se como um graveto. Por um momento, olhou fixamente nos olhos sem pálpebras, em seguida ergueu seu escudo novamente, para evitar a respiração escaldante. O dragão alcançou-o um bater de suas ásperas asas, e o lançou à terra. Jorge jogou fora de seu elmo, e arrebatou a espada larga de sua sela. Diante das vastas mandíbulas abertas para devora-lo onde estava, o guerreiro lançou-se contra peito verde e mergulhou na espada onde um coração devia se encontrar. Mas a criatura não tinha nenhum coração. Os jorros do sangue negro tingiram o Escudo de Jorge. Mas o dragão apenas jogou sua cabeça para trás e deu um rugido gargarejante. Suas garras rasgaram o manto do jovem homem em seis tiras esfarrapadas.
Uma vez mais, Jorge brandiu sua espada, dirigindo-a contra a mandíbula aberta. Ele a partiu por completo, e a besta debateu sua cabeça de um lado ao outro. Por um momento, o corpo cambaleante ameaçou cair e esmagar Jorge. Por isso, forçou com ambas as mãos o flanco do dragão para empurrá-lo para longe. Isso fez com que saísse fumaça das palmas de suas luvas. Com o lento gemer de uma árvore em queda, a criatura espatifou-se no solo a seu lado.
Jorge deixou-o onde caíra, e correu para onde estava a princesa, levantou seu rosto, e disse - "O perigo é quase passado. Eu vejo que tu és uma amável e pura donzela. Dê-me teu cinto, por favor, pois o dragão não está morto." - Com o cinto, circundou a cabeça escamada. Com isso, nas profundezas do corpo cavernoso da besta, seu fogo furioso foi extinto. No fundo de seus olhos, também, a selvageria e a maldade sumiram. O dragão vencido soltou seu último suspiro, que agora era inofensivo ao ar fresco. Juntos, Sabra e Jorge retornaram para dentro dos muros de madeira da cidade e pararam às portas do palácio.
- "Estranho," - disse o rei cheio de alegria, - "de onde tu vieste eu não sei, mas termina tua viagem aqui, toma meu palácio para teu repouso e minha filha como tua esposa!”
- "Eu não posso,” - disse Jorge, mesmo lançando um olhar cheio de sentimentos à princesa. - "tenho outros dragões para vencer.”
Seu cavalo lhe foi trazido, com sua crina e cauda brancas queimadas. E desprendendo cuidadosamente seu braço das mãos delicadas de Sabra, Jorge subiu em sua sela e cavalgou para longe. Embora Sabra tenha esperado por anos, observando da janela da torre a mais alta do palácio, ele nunca retornou.
Algumas pessoas dizem que tomou um navio, viajou a outros países e combateu outros dragões. Mesmo após mil anos, alguns disseram que o viram, ainda empunhando sua espada e seu escudo manchado de sangue, ainda lutando pela morte dos dragões. Mas não resta nenhuma lembrança sobre o lugar onde Jorge, finalmente, depositou suas armas e descansou. Alguns dizem que seu túmulo jaz na Pérsia em um lugar onde nascem rosas vermelho sangue, cujas pétalas agitam-se entre os espinhos dos arbustos, ao lado de águas serenas.

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Segundo a tradição Cristã, São Jorge teria sido um soldado romano, que viveu por volta do século III e sofreu perseguições por ser cristão, mas há quem diga que ele teria sido príncipe da Capadócia. Acredita-se que ele tenha sido martirizado em Diospolis (Lydda), na Palestina. Mas, as lendas sobre a figura de um mártir guerreiro foram ganhando contornos cada vez mais fantásticos na imaginação popular, principalmente a partir do século VI. As cruzadas também tiveram um papel fundamental na difusão do culto ao soldado, cuja imagem ganhara ares de cavaleiro medieval. O episódio da donzela e do dragão narrado aqui, teria se popularizado bastante no século XIII, porém, segundo alguns, teria tido sua origem na história mitológica de Perseu e Andrômeda. Este texto, contudo, foi composto a partir de dois outros em inglês que encontrei em 2003, e que hoje podem ser conferidos aqui e aqui.